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Com El Niño forte à vista, produtor muda o manejo para proteger lavoura e rebanho

Embrapa aponta novembro a janeiro como o período mais crítico de seca em MT, GO e DF e recomenda escalonar o plantio, manter o solo coberto e garantir água e sombra para o gado.

Por Redação O Berrante ·

Rebanho de bovinos zebuínos e mestiços pastando em capim verde entre fileiras de árvores, com um vaqueiro a cavalo ao fundo
Gado em área de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) em Cachoeira Dourada (GO). A sombra das árvores é uma das medidas indicadas pela Embrapa contra o calor. Foto: Túllio F/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A previsão de um El Niño muito forte até o fim do ano já mudou a rotina no campo. Produtores estão replanejando o plantio, protegendo o solo e preparando o rebanho para dias de calor extremo, alternados com pancadas de chuva. A agência americana NOAA calcula em 83% a chance de o fenômeno atingir nível histórico entre outubro e dezembro, e ele pode ser o mais intenso desde 1950.

Em reportagem exibida no sábado (10) pelo Jornal Nacional, o pecuarista e produtor de mirtilo Leonardo Maciel dos Santos contou como a instabilidade do tempo já afeta a criação de galinhas soltas. “Elas têm que ficar presas porque está chovendo. À tarde, você tem que soltar porque está um calor extremo, elas não ficam lá dentro. E à tarde vai cair aquela pancada de chuva, você tem que correr para prender elas”, disse.

Na fazenda, ele está plantando árvores nativas ao redor da propriedade, a chamada cortina verde, e recuperando as nascentes. No mirtilo, a saída foi podar menos para que as folhas protejam os frutos do vento e da chuva forte. A proteção tem custo: segundo a reportagem, a colheita caiu até 2,5 quilos por pé nesta safra.

Centro-Oeste dividido

No Centro-Oeste, o risco não é o mesmo em toda a região. Segundo as orientações regionais da Embrapa, Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal têm maior risco de seca, enquanto Mato Grosso do Sul, principalmente o sul do estado, tende a receber mais chuva. O período mais crítico para a falta de água vai de novembro de 2026 a janeiro de 2027, justamente quando a soja está em desenvolvimento.

Para soja e milho, a Embrapa recomenda seguir as janelas de plantio do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), usar cultivares tolerantes à seca e ao calor, escalonar a semeadura e manter a cobertura do solo. Plantar em datas diferentes e com cultivares de ciclos variados evita que toda a lavoura chegue à fase mais sensível ao mesmo tempo. Se a soja atrasar muito, a orientação é reavaliar a troca do milho segunda safra por sorgo ou milheto, culturas de menor custo e risco.

Outras recomendações por cultura:

  • Algodão: evitar a semeadura tardia e dar preferência a cultivares mais precoces.
  • Arroz: atenção à floração, porque temperaturas acima de 35 °C podem provocar esterilidade das espiguetas.
  • Feijão: seguir o Zarc, já que o atraso no plantio reduz a produtividade.
  • Cana-de-açúcar: em MT e GO, o foco é a seca e o atraso das chuvas; no centro-sul de MS, o excesso de chuva pode atrapalhar as operações.
  • Pastagens: ajustar a lotação à capacidade de suporte do pasto, manter reserva de forragem e garantir água e sombra aos animais. No Pantanal, acompanhar as chuvas, o nível dos rios e a prevenção de incêndios.

Rodrigo Garcia, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados (MS), e líder da plataforma regional do Centro-Oeste, afirma que o setor mantém a expectativa de produtividade alta por causa do investimento em tecnologia. Para ele, as práticas conservacionistas, como o plantio direto sobre palhada, aumentam “a resiliência do sistema de produção”.

163 medidas contra o risco climático

As orientações regionais saem de uma nota técnica com 163 medidas de gestão de risco climático que a Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O documento foi feito por um grupo de trabalho criado pelo ministério, com cerca de 50 profissionais da Embrapa e especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Entre as medidas que valem para todo o setor estão acompanhar as previsões do tempo e os dados meteorológicos locais, diversificar a produção no espaço e no tempo, adotar a integração lavoura-pecuária (ILP) e a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), ter planos de contingência, criar reservas financeiras e contratar seguro rural.

“Nós já temos um cardápio bastante grande de tecnologias que ajudam a enfrentar o El Niño e eventos climáticos adversos. O desafio agora é fazer com que esse conhecimento chegue ao produtor rural”, disse o coordenador do grupo de trabalho, Bruno Leite. O Mapa reuniu as recomendações na página El Niño Agro, no site do ministério.

Calor também pesa no bolso

Os efeitos vão além da lavoura. Amanda Schutze, coordenadora do Centro de Estudos em Economia do Clima da Fundação Getulio Vargas (FGV), disse ao Jornal Nacional que o risco climático precisa entrar na conta dos investimentos, porque eventos extremos afetam preços e produtividade. “Imagina um trabalhador que tem que trabalhar ao ar livre numa situação de calor extremo. A produtividade dele é reduzida, o gasto com saúde aumenta, tem atrasos naquele tipo de trabalho”, afirmou.

Na construção civil, outro setor que trabalha a céu aberto, as construtoras já preveem atraso nas obras: terraplanagem, montagem de vigas e concretagem de laje não podem ser feitas em dias de chuva. A próxima atualização da NOAA sobre o El Niño está marcada para 12 de novembro.

Com informações de Jornal Nacional/g1, Ministério da Agricultura e Pecuária, Embrapa (via Portal DBO) e El Niño Agro (Mapa).

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